A Terra é um casulo cheio de lagartas em metamorfose. Eu sou uma delas. Si Caetano
Eu sempre falei que tinha uma história de amor para contar, mas na verdade eu assumo que esta foi a maior mentira que eu contei. Eu tenho uma história de tempo, e na maioria dela, eu perdi. Se eu tivesse a lente que tenho agora, teria percebido antes que amar é verbo, é ação do sujeito que ama, e só. O sujeito ama só. Ele quer muito e a qualquer preço, e no final, o preço que se paga não vale a mentira que se conta. Você, sujeito, ignora a limitação do objeto amado e o cobre com a sua habilidade, você vive mentindo que é amado de volta também, quando na verdade, só amou. Só, amou.
Quando olhar para trás com os olhos que a realidade te dará, (porque ela é implacável) o que verá é um monte de horas perdidas como analista de um sujeito sem nenhuma ação, sem nenhuma remuneração, nenhuma mesmo. Nem o título de melhor pessoa que passou pela minha vida vai valer, isso porque, com 5 minutos você não valerá absolutamente nada diante de qualquer outra pessoa que ocupe aquele lugar de muleta que você foi. Sim, você foi só isso mesmo. É que tem gente que vive assim, a cada novo encontro, uma nova melhor pessoa da temporada vai surgir.
Parece banal mas é o máximo que algumas pessoas alcançam, o problema é quando você acha que pode ser algo além disso para elas. Esse problema é seu, não delas.
Essa é outra mentira que eu contaria, dizendo que a culpa é do ser que simplesmente não tinha suporte em si para viver essa dinâmica devolvendo em proporção o que se esperava. Mas a culpa é minha, a culpa é sua. A gente precisava dessa mentira, precisava vivê-la para descobrir a verdade - tem tempo na vida que é assim, a gente se apoia no que dá conta de suportar e tem que se perdoar para conseguir lidar com as próximas mentiras que virão. Porque virão. Viver é ter olhos para suportá-las e escolher com qual delas você vai casar.
Mas será inevitável pensar que se pudesse voltar no tempo mudaria o roteiro, mas não pode. Sim, você perdeu tempo engolindo seu desconforto constante para deixar pessoas felizes, deixou de se sentir amada porque achou que amar era mais nobre, ignorou inúmeros sinais vermelhos que qualquer um percebia latejando menos você, e o mais importante, aceitar o fato de que é a sua história e você tem que respeitá-la com dignidade.
Sendo assim, o que resta depois de uma grande mentira é isso, juntar os arrependimentos, misturar com a ira, salpicar com o desprezo, ponderar com o bom senso, permanecer e finalmente aprender: amar não é suficiente. Nem amor era.
Sempre levei tudo muito a serio, até minhas brincadeira tem o peso da seriedade que exalo e embora sempre tenha me questionado por isso, vejo que eu não poderia ser diferente pois desprezo quem passa a vida inteira brincando de viver e brincando de acaso. Talvez por isso odiei tanto quem fui antes e quando percebi, já tinha te convidado.
Eu tenho muito compromisso com o que falo e isso não é força de expressão - meu corpo e minhas ações se comprometem com minhas palavras em todos os poros e isso diz como vou me sentir.
Suspeito que minha estrutura funciona assim, mas isso não significa que tudo seja tão fácil de perceber. Nem eu consigo retirar peso do que sou e as contradições não me deixam seguras (ainda bem). Então, como você pode achar que me leu e agora sabe tudo a meu respeito?
Sua presença em meu santuário foi um desrespeito com minha alma. Sempre soube que era indigno de estar em minha presença, mas meu compromisso é sempre com a minha palavra e com mais ninguém.
E você não quis só entrar, você subiu no altar, aproveitou que ele estava vazio e fez parecer que era seu para ocupar.
Vislumbrei força de quem quer, você simulou muito bem, mas quando percebi que suas palavras eram só brincadeira de quem ainda não aprendeu a viver, já estava tudo imaculado com reflexo do seu cigarro por todos os lados.
Sua pretensão sempre me disse o quanto era inapto para estar em santuários, você é pagão e seu Deus é o próprio ego. Mas você subiu como quem sabe rezar, dançou, fez oferendas e desceu, tudo sozinho. Sozinho não, você ascendeu com a minha descrença.
Eu sabia exatamente que você iria cair mas não foi fácil ver sua queda. Eu precisei esperar o efeito anestésico ruir para só então aceitar o que eu já sabia. Eu não acredito na realidade, eu acredito no que eu sinto e por isso foi triste ver o santuário vazio, de novo.
Mas não posso ser leviana, derrubar um deus prepotente, por um momento, me fez sorrir.
Previsível. Afinal, eu não sei brincar, nem perder e só você estava se divertindo.
É muito comum as pessoas confundirem pessoas intensas com pessoas dramáticas, mas essa injustiça eu não vou cometer: o dramático cansa as pessoas, os intensos se cansam. O dramático interpreta que sente muito, o intenso sente e transborda e vaza por todos os poros - é sobre isso que pensei outro dia enquanto tomava banho e rebatia mentalmente alguma situação que não fazia o menor sentido relacionar.
Queria defender os intensos mas não há defesa, eles estão condenados às piores formas de existir que o ser humano poderia ter - aquelas que precisam sentir muito e tudo e sempre para só então respirar e deitar a cabeça em paz no travesseiro. Não é que eles podem não ser assim, não há saída para o que se é, ou você é ou você simplesmente rasteja pela vida como um zumbi.
Não dizer o que sente, esconder o jogo e tentar conter os gritos de alegria que a alma dá com qualquer mínima reciprocidade infantil é para quem consegue fazer drama, não para os intensos. Não há cálculo, não há atalho, só há vontade, energia e aquela falsa sensação de poder que a explosão do intenso promete gerar antes de cair em desgraça com as consequências das suas não-escolhas.
É por isso que o intenso joga limpo, porque ele precisa que o território exista para caber sua explosão, e se depois dela, não houver mais território, nem som algum, só então, eles deixam para lá.
Mas é um deixa pra lá depois de ter dito tudo que queria, de ter dado todas as coordenadas de onde a bomba vai cair. Depois de instalar o caos, só depois disso, quando já não existir nada além de pedaços e poeira ele vai dizer.
Junta os cacos de si mesmo e vai colar sozinho, não há depois, promete que nunca mais vai se envolver em nada assim tão profundamente. Neste momento ele começa a se regenerar, parece que liga um autolimpante emocional e vai saindo do planetinha sem forma cheio de respostas que não precisava.
Vai rir depois porque não vai encontrar nexo no tamanho do investimento feito para com o estrago colhido é que não tem a ver com ninguém mesmo, é uma necessidade básica da existência deles.
Mas quer saber? Deixa para lá.
Não queria mais intercalar respirações fugindo da luz, não queria mais o despertar da vontade, só queria encontrar a si mesma numa varandinha cheia de ar nos pulmões e satisfação na ponta dos dedos.
Cansou de pegar em facas para defender sozinha uma plantação de cinzas. Decidiu plantar em si tudo que mataria para regar no outro. É aquela coisa de terra fértil, só há veneno por aí e não há outro lugar mais fértil que sua própria existência disposta a ser mais que uma alma perdida em paixões de mentirinha e enganos mal elaborados.
Deu ódio, mas aquele ódio que te faz afastar o que te faz mal, sabe? Deu ódio de ser vulnerável, deu ódio de estar disposta a se ferir para curar o desejo, deu ódio de facilitar o caminho de quem não tem pés para sua estrada, deu ódio, deu em todas as flores, ódio de não cortar antes.
É aquele sentir que desperta a semente da lucidez, que faz colher satisfação e benignidade de espelho. Quando estiver pronta, vai plantar em si, de novo, agora só o que colheu da poda, da distância e do jejum de olhos - que venha a primavera das lagartas.
(Aqui vai um monte de metáfora porque não posso perder a chance da riqueza que ela finge agregar nesse texto)
São 14:55 de uma terça-feira e ela já está na segunda taça de vinho, curiosamente, teve um lampejo de lucidez e tomou um remedinho para não ter tanto efeito colateral desse momento bizarro que subitamente se permitiu ter.
Colocou Duda para tocar, e está sentindo tanto! É como se tivesse aberto a caixa preta de um avião antes dele colidir num muro de concreto. É muito ruim não conseguir ser esse muro. Infelizmente descobriu que é o avião e a caixa preta está prestes a desgraçar sua autoimagem. Mas tudo bem, a alienação vai conseguir transformar tudo que sente em nada - a viagem dessa bad é o que vai salvar seu voo imbecil em um laguinho raso como a sola de uma havaiana velha - puta que pariu que sentença foi essa?
Do absoluto nada ela se pergunta: isso tudo é culpa dele? E a consciência (maldita) logo responde: claro que não. É culpa dela mesma, ela não consegue manter o controle de nada, sua cabeça é fudida demais para não inventar qualquer coisa insignificante que tire ela da realidade, já não suportava mais conviver com tanta solidez e existencialismo. Estava sedenta por uma ilusão que valesse cada gota do seu Cabernet.
Chegou a conclusão que, o vazio que lhe preenche desde o momento que se percebeu existente (ela tinha 5 anos) é muito pior que qualquer brincadeira adolescente gritando "você já tem 30 caralho".
Entendeu cada uma das pessoas que por um momento assim desistiu de tudo, e partiu para a memória eterna das outras pessoas que nunca se lembraram o suficiente para perguntar se elas queriam companhia no precipício. Ah, como o ser humano é patético e egoísta. Mas ela não achava que era assim, lutava contra o altruísmo exacerbado que veio instalado de fábrica: todo egoísmo à mostra era só mentira das mais deslavadas.
Enfim, mais uma tolinha enganada por sua própria vaidade, ou uma boba qualquer que poderia ser enganada por qualquer psicopata que quisesse lhe tirar tudo. Mas ela não teve essa sorte. Teve que lidar com tudo no real sem ter a quem culpar - e você sabe o que isso significa né?
A viagem ainda está longe de terminar. Aperte os cintos. E sinta muito por ela só não sinta pena, você não sabe o quanto ela é mentirosa quando está vulnerável e carente por atenção. Mas não finge que não sabe do que se trata, ela sabe que você sabe. Nós sabemos!
(É aqui que você desce mas continua viajando)